sexta-feira, 17 de junho de 2011

Repetindo frases e rimas

Essa é a primeira página do Zine Náusea.


Texto de Mário da Silva Brito, extraído do suplemento literário do jornal O Estado de São Paulo, do dia 18 de abril de 1971.

          Gritos, urros, berros, guinchos - e treliques, convulsões, gestos histéricos, espasmódicos e frenéticos - integram a música que ora se faz e se canta aqui e em qualquer lugar do universo. Será mesmo música? Será mesmo canto? Sim, por que não? Essa música é o canto que o tempo inspira. Praticamente não há mais letras nas canções, e quando elas aparecem, são de tal modo deformadas ou desarticuladas pelos intérpretes que se tornam uma vociferação ininteligível e sem sentido.
          Por que isto ocorre? Provavelmente porque a palavra não diz mais nada, não significa. Deu a louca nas palavras. Os conceitos que possam conter ou que já tiveram, espatifaram-se antes os trágicos desacertos do mundo contemporâneo, esfarinharam-se em razão de, mentirosa e falsamente, terem transmitido mensagens não cumpridas de amor e justiça, de compreensão e humanidade. Sempre que a palavra perde o seu conteúdo conceitual, e não corresponde mais a uma realidade vivida e palpável, a uma certeza alentadora, é sinal de que se está diante de um momento de crise, de uma hora de transição: os valores antigos caem de podre, e os novos ainda não se configuram plenamente.  
          Nosso mundo insado, conturbado, não pode gerar harmonias celestiais. Vivemos numa atmosfera demoníaca, exacerbada, doente, poluída no ar e na alma, nos relacionamentos com os outros e conosco mesmo. Somos a era nuclear, mas perdemos o núcleo da vida. Somos a civilização - ou a cultura do perigo atômico. Nossas coordenadas são as dos herbicidas, do napalm, do genocídio, da tortura, dos raptos e sequestros, dos campos de concentração, da censura, do totalitarismo estatal, da fome e da miséria, dos alucinógenos, da morte e da espreita em cada canto e recanto, do terror, das violências contra o indivíduo e as coletividades e os inocentes, dos crimes impunes, dos crimes estimulados pelo Estado, quando não diretamente praticados por ele. Somos a era do pânico e da angústia.
          Nesse quadro - pálido esboço de uma realidade muito mais terrível - a música e o canto, as artes e as letras, tudo quanto exprime exprime e reflete o homem - esse exilado, esse desvalido - hão mesmo de estar impregnados de desespero, protesto, inconformismo, morbidez, fuga e loucura. O homem degradado está denunciando a triste e lamentável condição a que chegou. Aos berros. Aos urros. Em gritos lancinantes. O mais triste de tudo é que, apesar de suas ruidosas manifestações, ninguém o escuta. Maior do que o rumor, é o silêncio dos que comandam a vida.

O mundo parece governado por surdos.



O QUE SERÁ QUE MUDOU DE LÁ PRA CÁ?

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